Ansiedade: a mente que não desliga.
Ansiedade é uma emoção normal e útil: ela antecipa risco e prepara o corpo para agir. Vira transtorno quando passa a ocorrer sem ameaça proporcional, quando não desliga depois que a situação passa, e quando começa a estreitar a vida da pessoa, que deixa de fazer coisas para não sentir o desconforto. A diferença não está na intensidade do que se sente, e sim na frequência, na duração e no quanto isso custa. Em 2021, 359 milhões de pessoas viviam com um transtorno de ansiedade no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde.
O problema não é sentir ansiedade
Uma parte grande do sofrimento de quem chega ao consultório vem de tentar não sentir. A ansiedade é tratada como defeito a ser eliminado, e o esforço para eliminá-la acaba virando o combustível dela.
Vale entender de onde ela vem. O sistema que produz ansiedade não é um defeito de fabricação, é um mecanismo de sobrevivência. Ele foi calibrado para errar para o lado seguro: imaginar o predador atrás do arbusto nove vezes à toa custa pouco, não percebê-lo na décima custa tudo. O cérebro herdou essa régua e continua aplicando ela.
O que mudou foi o ambiente, não o sistema. Como resume Robert Leahy, é o medo certo no momento errado. Isso não torna o sofrimento menor, mas muda a pergunta: em vez de tentar desligar um alarme que existe por bons motivos, o trabalho é aprender a não organizar a vida em torno dele.
O critério clínico segue a mesma lógica. Não se avalia se a pessoa sente muito, e sim o que a ansiedade está fazendo com a vida dela: com o sono, com o trabalho, com as relações, com as coisas que deixaram de ser feitas.
Os números
Segundo a Organização Mundial da Saúde, 359 milhões de pessoas viviam com transtorno de ansiedade em 2021, das quais 72 milhões eram crianças e adolescentes. A OMS registra também que a maioria das pessoas com transtornos mentais não tem acesso a cuidado efetivo.
No Brasil, os benefícios previdenciários concedidos por transtornos ansiosos passaram de 81.874 em 2023 para 157.235 em 2025, um crescimento de 92% em dois anos. Os dados são do INSS, levantados pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho.
Como a ansiedade costuma chegar ao consultório
Raramente com essa palavra. Chega como insônia que não cede, como a cabeça que já está na segunda-feira antes de o domingo terminar, como o ensaio mental de conversas que talvez nunca aconteçam.
Chega pelo corpo com frequência: taquicardia, aperto no peito, nó na garganta, estômago fechado, mandíbula travada. Muita gente passa por cardiologista e gastroenterologista antes de passar por psicólogo, e isso não é erro, é ordem sensata de investigação.
E chega, quase sempre, com uma pergunta parecida: por que eu não consigo simplesmente relaxar.
O que mantém a ansiedade de pé
Este é o ponto mais útil de entender, porque é onde a mudança acontece.
Quase toda estratégia contra a ansiedade funciona no curto prazo. Evitar a reunião alivia. Checar o e-mail mais uma vez alivia. Pedir para alguém confirmar que está tudo bem alivia. Ensaiar a conversa dezenas de vezes alivia.
O problema é o que vem depois. Cada alívio ensina que aquilo era mesmo perigoso e que só não foi pior porque você evitou. A vida vai ficando um pouco menor a cada vez, e a ansiedade fica um pouco maior.
Isso não é falta de esforço. É o oposto: é esforço demais na direção que não resolve.
Quando é ansiedade e quando é outra coisa
Ansiedade se sobrepõe a muita coisa, e por isso a avaliação importa.
Pode ser depressão, quando o que domina não é a agitação e sim a perda de sentido e de prazer. Pode ser esgotamento ligado ao trabalho, quando o desgaste tem endereço claro. Pode ser TDAH, quando a dificuldade de sustentar atenção existe desde a infância e a ansiedade veio depois, como consequência de anos tentando compensar. E pode ser causa clínica, como alterações da tireoide, o que uma avaliação médica esclarece.
Tratar a camada errada atrasa o cuidado de quem já está cansado de esperar.
O que a terapia faz, e o que ela não faz
A terapia não elimina a ansiedade, e nenhum tratamento sério promete isso. Ansiedade faz parte do funcionamento humano e continuará aparecendo diante do que importa.
O que muda é a relação com ela. Sentir o desconforto sem precisar obedecer a ele. Reconhecer, no momento em que acontece, qual estratégia de alívio está prestes a cobrar caro depois. Recuperar as coisas que foram sendo cortadas da rotina para evitar o mal-estar.
O trabalho parte do que está acontecendo agora, do que você já tentou, do que funcionou por um tempo e do que passou a atrapalhar. Não é sobre pensar positivo, é sobre parar de organizar a vida em torno do que se teme.
Entre os transtornos mentais comuns, os quadros de ansiedade estão entre os que mais acumulam evidência de resposta a psicoterapia. Isso não é promessa de resultado, é um bom motivo para não adiar.
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